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Vinho branco, Jerez ou… estragado?

sexta-feira, 11/janeiro, 2008

Foi exatamente essa pergunta que eu me fiz quando tomei o Côtes du Jura Cuvée Tradition do produtor francês Baud Père & Fils, safra 1996 (R$ 92 no Club do Taste-Vin).

Tomei conhecimento desse vinho há algum tempo, após ler um comentário no falecido blog do Ed Motta sobre vinhos. Na verdade o cantor havia tomado um vinho diferente do mesmo produtor, o Château Chalon, safra 1992. Mas a “alma” do Cuvée Tradition e do Château Chalon é a mesma.

Explico: Chalon é uma região de 50 hectares que fica na região do Jura (pronuncia-se jurrá), no leste da França, perto da fronteira com a Suíça. Lá são produzidos os chamados vin jaune, que são famosos pela longevidade. Esse tipo de vinho é feito de um jeito parecido com o Jerez, o vinho fortificado espanhol que é bebido como aperitivo. Ou seja, um vin jaune é oxidado de propósito. Funciona assim: o vinho é feito normalmente, com a uva francesa savagnin (parente da gewurztraminer). Depois, as tampas dos tanques de fermentação são abertas para o vinho ter contato com o ar. Deixar um vinho aberto por muito tempo, em contato com o oxigênio, é um processo que, normalmente, estraga a bebida. Mas, nesse caso, é algo desejável.

Bom, o vinho fica lá um tempão, em contato com o ar. As leveduras e bactérias entram em ação e o vinho produza uma, digamos, película branca que os franceses chamam de “flor”.  Depois o vinho vai repousar em barris de carvalho. Chega a ficar lá por até seis anos, o que é um bocado de tempo para qualquer tipo de vinho. E aí ele é engarrafado.

Eu adoro uma novidade. Não acho que o mundo do vinho deve ser chato e quadrado, muito pelo contrário. Embuído desse espírito, abri o vinho. Não esperava que ele fosse tão fantástico como disse o Ed Motta, mesmo porque eu sabia que o Cuvée Tradition seria um vinho inferior ao Chalon (um é intermediário para a Baud, enquanto o outro é o top de linha da vinícola). Mas confesso que me decepcionei.

Logo de cara, no exame visual, a primeira surpresa. O vinho tem uma coloração amarela muito, muito forte. Das duas uma: ou seria um Jerez ou estaria estragado.

Fomos ao nariz. Muito mel, flor, castanhas, manteiga. Pelos aromas, o vinho prometia muita untuosidade na boca. Lembrava o cheiro de um vinho de sobremesa, mas não tão doce. Meu cérebro já começava a dar um nó…

Provei. Numa frase, na boca o vinho não tinha absolutamente nada a ver com o que ele indicava na aparência e nos aromas. Um vinho seco, sem corpo e… sem gosto. Jerez não era. Estragado? Branco leve que nem água? Quero dizer, ele estava mais para vinho amarelo do que branco… Cadê a untuosidade? Persistência zero. O vinho praticamente sumia na boca. Parecia evaporar.

No fim das contas, não consegui terminar a garrafa. Foi uma experiência válida, mas com resultado muito ruim. 100% de estudo e 0% de prazer. Esse vinho me lembrou um pouco o Insólito, da Cave Ouvidor, sobre o qual eu escrevi aqui outro dia. Prometia demais no exame visual e no olfativo, mas fracassava na boca. A sensação que eu tive com esse Jura foi a mesma. Decepcionou.

Tenho um amigo que diz que, com exceção dos tops da Borgonha, é sempre bom desconfiar de um vinho branco com muitos anos de vida. Ou ele está ótimo ou passou do ponto. No caso desse vinho intrigante do Jura, eu arrisquei esperando altos ganhos. E perdi.

É a vida. Até o próximo post.

O melhor do fim de 2007

quarta-feira, 2/janeiro, 2008

Depois de uma quente e ensolarada folga de verão no fim do ano passado, eis que o blog volta com a corda toda em 2008. Já não era sem tempo: há muita coisa a ser escrita.

Começo com o Natal. Assim como muita gente, eu e minha família participamos desde sempre de uma tradicional festa para celebrar o nascimento de Cristo. Normalmente ela é regada a vinhos brancos e tintos. De uns três anos para cá, devido provavelmente ao aquecimento global, mudamos para espumantes. Neste ano, mais uma inovação: fomos exclusivamente de cavas.

Ótima escolha. Minha impressão é que os espumantes espanhóis estão cada vez melhores. Refrescantes, frutados, ótimos em sua proposta de unir prazer e simplicidade. Os três tipos de cavas que tomamos no Natal –Freixenet brut e rosé (Diageo) e Monasteriolo (Expand) – cumpriram bem essa escrita. Na minha avaliação, são ótimas. E têm uma bela relação custo/benefício. Vale a pena conferir com os importadores.

A semana de folga entre o Natal e o Ano Novo serviu para desovar algumas coisinhas da adega. A mais surpreendente foi um vinho branco da região do Jura, na França, safra 1996 (!). Mais detalhes no próximo post.